Sobre

Não me lembro de nascer… Mas lembro-me sim,  de muito pequena, olhar para o espelho com muita atenção e perguntar quem sou eu? Esta que está aqui, ou a que está no espelho? Esta questão perseguiu-me toda a vida, e assustava-me.

De resto, penso que, possivelmente, isto poderá acontecer a muitas pessoas. 

A partir daí começamos a construir a imagem que temos de nós, a nossa identidade, afetividade.

Alegre ou triste, a minha vida foi sempre muito movimentada e pautada por muitas presenças, muitos afetos, alguns medos e expectativas sobre o futuro, como acontece a todos.

Depois os gostos divergem e cada um procura o seu caminho.

Irmã mais velha de uma família numerosa, para mim a vida não foi fácil. Refugiei-me na imaginação.

Havia sempre qualquer coisa que não tinha mas podia ter, que não era mas podia ser.

Na escola, enquanto sonhava com o que se passava lá fora, com os pássaros e com liberdade, mantinha o meu ar seráfico: franzina, olhos azuis e duas tranças loiras, o que permitia que as professoras pensassem que estava o mais atenta possível.

Realmente eu devia ser uma criança hiperativa e devia ter um défice de atenção. Felizmente nessa altura não havia ainda a moda da “ritalina”, talvez tivesse perdido alguns dos meus principais atributos/defeitos. 

Medicina foi o meu ponto de partida, mas a estética perseguiu-me desde o berço, adorava coisas bonitas: escritas, desenhadas, pintadas… a beleza da natureza, a beleza do incomensurável… e até o desconhecido. Lia sem parar e evadia -me com as personagens dos romances e dos livros de aventuras que o meu Pai tinha então nas estantes e que falavam de mares distantes, da Polinésia, da Índia, do Brasil…

Os afetos eram qualquer coisa de difícil para mim, tinha dificuldade em os expressar e refugiava-me dessa forma, para não os exteriorizar.

Pouco a pouco fui descobrindo, não sem custo, muita coisa. Por exemplo, que na medicina e no ato médico também havia poesia!

Tive que “dividir” a poesia com a família, quando resolvi ser mãe. Não foi fácil, como acontece com todas as mulheres que trabalham e sobretudo com as que exercem medicina. 

Nessa altura comecei a perceber que a minha  grande qualidade era mesmo a de falar com as pessoas e, com facilidade, criar empatia.

Médica e exercendo já a especialidade, aí entrei em contacto com a informática e com os processos em rede, networking, como se diz hoje em dia. 

Não tinha facilidade com as crianças, mas tinha com os adultos, tanto mais quanto mais humildes fossem, porque me conseguia colocar no lugar deles e falar a mesma linguagem.

Isso deu-me, nalguns casos, artes mágicas.

Quanto mais evoluía na profissão, isto é, quanto mais tempo de trabalho tinha, mais fácil me era “adivinhar” os outros.

Quando me reformei tive ocasião de perceber que tinha adquirido uma mala mágica, com muitas coisas lá dentro, que só fui descobrindo aos poucos. 

E agora, oito anos depois, decidi realmente abrir a mala e partilhar as minhas histórias e promover o mais possível aquilo que já fui fazendo empiricamente: a comunicação entre as pessoas. É isto que mais falta faz à humanidade e é isto que me proponho a fazer neste site, contando algumas das minhas vivências: vitórias e dificuldades.

Estarei aqui toda inteira, nas minhas histórias que praticamente são todas reais, embora mais ou menos camufladas.